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23 dezembro 2011

Uma história de Natal bem nordestina

Quando Deus resolve criar o mundo, as coisas acabam não saindo como planejado. O sertão nunca mais será o mesmo, depois que o jumento Limoeiro vem a terra pra dar um jeito na humanidade, que depois de sucumbir à tentação do capeta, acaba botando o mundo em desordem.

O Jumento Santo (PARTE 1)



O Jumento Santo (PARTE 2)

28 março 2011

Animação 3D: "Até o Sol Raiá"

ATÉ O SOL RAIÁ é um conto de fantasia e de celebração ao imaginário nordestino. Personagens de barro criados por um artesão ganham vida própria e agitam uma pacata vila sertaneja numa noite de festa. Animado em 3D, o curta-metragem funde a tradição do artesanato em barro com o cangaço, numa referência a dois ícones da cultura do Nordeste.




Direção: Fernando Jorge e Leanndro Amorim
Produçao executiva: Amaro Filho, Claudia Moraes e Rafael Coelho
Argumento e roteiro: Eduardo Felipe e Michel Alencar
Consultoria de roteiro: Dirceu Tavares
Literatura de cordel: Alves Dias
Traduções: Katyayane Melo e Gabriela Lima

http://www.ateosolraia.com

23 janeiro 2011

Estudo para cordel: sertão de vaqueiros, berrantes e aboios

Por Rangel Alves da Costa*

Num sertão de mataria, de pega de boi e correria, o sertanejo quando acorda, olha o mundo e o que lhe aborda e mesmo que tudo esteja triste, pois o verde não mais existe, a seca inclemente persiste e a esperança quase desiste, ainda assim surge um alegrar, nos olhos vem um brilhar, chamando à luta pra vaqueirar.
São vaqueiros desse mundão, do destino no sertão, do café sem ter o pão, do problema sem solução, da promessa e decepção. Vaqueiros de tudo que há, desde a casinha de morar, no cercado de roçar, da vida além a lhe chamar para o rico vaqueirar. Vaqueiros de mulher e filhos, desse trem sem ter mais trilhos, da escuridão onde era brilho.

O que vejo nesse sertão chega parece ilusão, mas logo me vem na memória vaqueiros numa história, de ontem e de então. Tantos cordelistas vaqueiros, que nas terras do cordel foram os primeiros a cantar a solidão desse viver no sertão, por ter tudo e nada ter, a não ser a galhardia de aboiar noite e dia pra vida ter alegria.

Então vejo Leandro Gomes de Barros aboiando, João Firmino acompanhando, Melquíades Ferreira da Silva com o seu pavão pavoneando, João Camelo lhe desafiando, Cego Aderaldo violando, Otacílio Batista versejando, Zé da Luz apaixonado, soltando um aboio exaltado, chamando a compadria para ouvir seu novo verso, então se forma um universo de cordelistas em euforia.

Gonçalo Ferreira da Silva apressado vai chegando acompanhado de um Moreira de Acopiara exaltado. Cada um traz seu berrante, pelas costas um embornal, dizendo ter uma notícia que nunca se viu igual e espalham em todo canto tanto verso e tanto encanto que Rouxinol de Rinaré passa mal com tal espanto. E todos puderam ver, sem acreditar nem crer a nata do cordel com a chama a lhes acender.

E que nunca leu, ouviu falar ou se deu a cordel daquela altura, da mais alta literatura escrita com tanta invenção e bravura: "Sofrimentos de Alzira", “Juvenal e o dragão”, “A moça que bateu na mãe e virou cachorra”, "Antônio Silvino", “O cachorro dos mortos” "Zé Bico Doce”, "Os Cabras de Lampião", "Pavão Misterioso”, “História da princesa da Pedra Fina”, “Batalha de Oliveiros com Ferrabraz”, "Vaqueiro Damião", “A chegada de Lampião no inferno”, dentre muitos outros do cordel eterno.

Em muitos desses livretos, como versos em sonetos, o artista que é vaqueiro fala de outro companheiro, cabra mais que cabreiro, na sua arte o mais ligeiro, para mostrar que o vaqueiro da raça é o primeiro. Sertão sem vaqueiro existe não, é missa sem o sermão, é cantoria sem violão. E aquele que tange gado, pega boi desesbestado, corre em cavalo malvado, salta cerca e pula estrado, não faz só por profissão, pois além da precisão é catingueiro de coração.

O cordel canta o vaqueiro como a chama do isqueiro, dando toda importância ao sertanejo verdadeiro. Vaqueiro de pega-de-boi, de vaquejada, de estrada com a boiada, homem que corta invernada para o rebanho juntar, e vai chegar onde ele tá nem se quipá lhe furar. Vaqueiro com seu gibão, seu selim, seu alazão, seu embornal e seu chão, cara marcada pelo lanhão, necessitado de proteção na vaqueirama como missão.

Bicho conhece vaqueiro, basta ouvir o berrante e some no mato ligeiro. Treiteiro é da boiada o boiadeiro. Cada berro que ele dá não é só gado alertar, mas dizer a natureza que ela tenha a gentileza de deixar ele passar, não ponha toco no meio, deixe o cipó mais alheio e tire tudo que for feio para o cavalo passar, pois a pata que corta chão necessita do clarão da mata para avançar.

Vaqueiro que sai cedinho, fala com o sertão de mansinho, e depois de fazer carinho à natureza ao redor vai pro mundo e não vai só, pois leva o de melhor que é a esperança de voltar, por isso faz seu rezar para à noitinha avistar a filharada a lhe abraçar. E quando chega feliz, salvo que foi por um triz, vai tomar uma golada de pinga com raiz misturada, que é pro sangue acalmar, pra o vaqueiro relaxar e começar a aboiar.
E no descampado sertanejo, surgido como um lampejo ecoa um som pelo ar, primeiro vem o berrante depois o vaqueiro a aboiar. O aboio é canto triste, magoado por demais, cantado dolemetente, o vento lembrança traz, de amor e de boiada, de tudo que satisfaz.

No aboio de Seu Leonel: “Vaqueiro que é vaqueiro/ Amansa o gado e quer bem/ Todo dia vai ao campo/ E conta a boiada que tem/ Quem não gostar de vaqueiro/ Não gosta de mais ninguém/ Oh! Festa de gado! Êh, boi!”.

No aboio de Zé Preto:

“Brinco com touro valente/ Lembrando de tu menina/ Qualquer coisa de amor/ Que tu subé, tu me ensina/ Eu morro por ter respeito/ Outra coisa eu não aceito/ Que teus olho me domina/ Êi, boi!”.
No aboio que o cordelista Zé da Luz escreveu: “Minha fama de vaquêro/ Fez inveja a cantado/ Aos mais grande violêro!/ Pois se êles tinha as viola/ E trazía nas cachóla,/ O dom da impruvisação/ Eu dibáxo dêsses couro/ Tinha um violão sanôro/ Parpitando de emoção!/ O violão do meu peito/ Nas corda do coração!/Quando meu peito aboiava/ A naturêza iscutáva/ Num ato de cuntrição!”.

Ou ainda no aboio cantado por Luiz Gonzaga em homenagem ao grande vaqueiro Raimundo Jacó:

“Numa tarde bem tristonha/ Gado muge sem parar/ Lamentando seu vaqueiro/ Que não vem mais aboiar/ Não vem mais aboiar/ Tão dolente a cantar/ Tengo, lengo, tengo, lengo,/ tengo, lengo, tengo/ Ei, gado, oi/ Bom vaqueiro nordestino/ Morre sem deixar tostão/ O seu nome é esquecido/ Nas quebradas do sertão/ Nunca mais ouvirão/ Seu cantar, meu irmão/ Tengo, lengo, tengo, lengo,/ tengo, lengo, tengo/ Ei, gado, oi/ Sacudido numa cova/ Desprezado do Senhor/ Só lembrado do cachorro/ Que inda chora/ Sua dor/ É demais tanta dor/ A chorar com amor/ Tengo, lengo, tengo, lengo.../ Ei, gado, oi!”


Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

14 dezembro 2010

A Saga de Benjamim Abrahão Parte I

Por Rostand Medeiros
de CARIRI CANGAÇO

Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio fotográfico pernambucano. A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50.

No início da vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião, as suas ações, os seus feitos de armas, eram basicamente conhecidos pelos sertanejos através dos cantadores, dos emboladores, das conversas dos mascates nos dias de feira. Estes meios de divulgação tradicionais, mesmo de forma lenta, ajudaram cada vez mais a criar na população do sertão o temor e, igualmente, contribuíram na propagação do mito ao redor da figura verdadeira.

Durante certo tempo muitos sertanejos não tiveram ideia da aparência e de outros aspectos ligados à figura de Lampião. Logo surgiu na imprensa uma boa quantidade de fotografias do chefe cangaceiro e este fazia questão de se deixar reproduzir diante das câmeras. Ele não tinha a aversão que o grande cangaceiro Antônio Silvino, preso em 1914, nutria pelas lentes fotográficas. Pelo contrário, gostava tanto que até cartões com a sua foto estampada foram um dia produzidos.

Na proporção em que cresciam as suas ações e a fama do seu bando nos sertões nordestinos, a sua figura ultrapassava limites regionais e as pessoas de todas as partes passaram a ouvir falar no conhecido “Rei do Cangaço”. Mas para o público dos grandes centros terem a oportunidade de visualizarem a figura de Lampião e seu bando, em uma película cinematográfica, no interior de uma confortável sala de projeção, era algo mais complicado.

Benjamim ao lado do Rei e Rainha do Cangaço

Desde que o cinema chegou ao Brasil, em 8 de julho de 1896, com a inauguração de um “omniographo” na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, o seu desenvolvimento era cada vez mais intenso. Novas salas de exibição eram inauguradas pelo país afora, onde o público consumidor desejava através das imagens, tanto o entretenimento, quanto o conhecimento dos aspectos do imenso país.

Para uma pessoa de iniciativa e coragem, a ideia de filmar Lampião e seu bando poderia gerar muita fama e dinheiro. Somente através da iniciativa de um emigrante libanês, foi possível imagens do famoso cangaceiro e do seu bando, sendo este o único registro cinematográfico desta controversa figura.

Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 313 a 317), seu nome completo era Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo originário do Líbano. Sua terra natal era Zahle, uma cidade situada na parte central deste país, no chamado Vale do Bekaa, próxima a cadeia de montanhas do Monte Líbano, em uma área extremamente fértil para agricultura e onde até hoje predomina uma população cristã.

Para alguns estudiosos ele teria vindo para o Brasil em 1910 e para outros ele aqui chegou em 1915. A razão de sua saída seria a ideia de buscar novas paragens para progredir na vida e deixar uma região então dominada pelo Império Turco Otomano desde 1517. Outra teoria aponta que a vinda de Abrahão seria uma fuga da convocação do exército que ocupava sua terra, para combater na Primeira Guerra Mundial.

Nesta época a nação libanesa ainda não havia sido oficialmente criada e os imigrantes que deixavam esta região e se dirigiam para o Brasil, eram normalmente conhecidos como “Turcos” ou “Sírios”. Apenas em 1926 foi oficialmente criada à República do Líbano, por interesses dos franceses.

Quis o destino que Benjamin Abrahão viesse para Recife, onde conseguiu um emprego de vendedor. Depois, impulsionado pelo espirito aventureiro e senso de oportunidade, foi até a cidade de Juazeiro, no interior do Ceará, onde conheceu o mítico e venerado líder religioso Padre Cícero Romão Batista. Após os primeiros contatos com o homem considerado santo pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste, o libanês passou a ser conhecido na cidade como jornalista, secretário particular, fotógrafo e acompanhante do “Padim Ciço”. Existe a versão que o libanês de fala enrolada conquistou o coração do severo clérigo quando mentiu descaradamente ao afirmar ter nascido em Belém, a cidade natal de Jesus Cristo.



Para estas duas interessantes figuras este encontro foi extremamente positivo. Para o eterno cura dos desvalidos do Cariri, a figura de um secretário estrangeiro, nascido na terra de Jesus, certamente trazia respeitabilidade junto a elite local e chamava a atenção dos milhares de romeiros que vinham atrás de suas bênçãos. Já Benjamim sabia que o Padre Cícero era um líder prestigiado, sendo um porto seguro em um país desconhecido, em meio a uma Juazeiro em franco crescimento. Era bem melhor o calor de Juazeiro, do que vestir um uniforme turco e levar um tiro dos ingleses na península de Gallipoli.

Tudo indica que o imigrante se deu muito bem nas terras do “Padim Ciço” e se entrosou perfeitamente com a sociedade local. Segundo o jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936, ao apresentar o “Sírio” Abrahão, o periódico informava que o imigrante teria fundado um jornal chamado “O Cariri”.


Rostand Medeiros
Pesquisador e Escritor



26 outubro 2010

Entre o cabaço e o comedor - Jessier Quirino

Ensaiozinho sobre o 2º turno da eleição presidencial – out. de 2010
Jessier Quirino

Quando surgiu por aqui a palavra roubalheira, cuidaram logo de rapar o “R” de Brasil, pensando que tinha um cifrão, e tinha. Daí a dificuldade da gente escolher um candidato a dono da casa e tocaieiro. Quer ver? Vá ouvindo aí: Em todo discurso microfonado a frase mais festejada é “Agora vamos a luta!”. Pelo perfil faminto dos apoiadores, e pelo pingue-pongue das acusações de lado a lado, conclui-se que LUTA pode ser Legião Única da Trambicagem Afiada. E a LUTA continua.

Eis que, no meio da campanha, surge um pacote supremo de trovões e de coriscos e um anúncio assustador:
− Quem for a favor do furto, da mentira e do aborto jamais chegará ao plano alto!!!!
 Não era Planalto, era plano alto. Repetindo: plano, alto. O lugar edênico; o olimpo; a mansão dos justos; o sublime plano das alturas. Pensaram que era Planalto e que teria, por certo, o visto do céu, aí deu o créu.

Tome juras de bondade, tome amor à cristandade...
Como é que pode, meu cumpade, se falar em ir pro céu, se, na terra, eles botam até óculos pra melhor acertar o centroma do povo? Aqui, quando um homem público, de tanto destampar o eleitorado, é acusado de “abuso de foder”, se desculpa na justiça dizendo: Ora, Excelentíssimo Ministro do Sopremo, eu fudo desde os 15 anos!! Pode um negócio desses? Eu FUDO? E não é Sopremo, é Supremoooo! E não é porque começou aos quinze anos que vai continuar a fornicada. Chega, cacete!

E como se não bastasse, tem a Lei da Ficha Limpa, aprovada, inclusive, pelo fichário sujo que escapou do alçapão. Pode? Pode. É só criar uma nova sigla: FACSE - Fundo de Apoio ao Corrupto Sem Esquema, e a

LUTA continua feito parafuso em compensado: fura, mas não deixa rosca.
Não podemos esquecer, lógico, o trabalho milagroso dos marqueteiros A e B, que consiste em pegar um rolo grande de arame farpado, rebater as pontas agudas, muito bem rebatidas, enrolar em plástico-bolha cintilante e sacudir nos peitos do povo, dizendo: “Vá por mim, vote nesse traste”. Depois de eleito é só abrir o rolo e ver o rolo que vai dar.

A tática de campanha do partido governista é apenas trocar de tambor: sai um tambor e entra outro; novinho; cabaço; virgem de eleição. Porém, apresenta falhas: penetra sem saliva na flor-roxa do sujeito e, que nem fábrica de pólvora, por qualquer bobagenzinha, é sujeita a explosão.

A tática da oposição é trocar o batalhão, as armas e o fardamento e manter apenas o alvo: o kuwait castigado da áurea e verde nação. Mas também tem dois defeitos: fama negra partidária de comer o eleitorado, e a feição do candidato ser de um mastro hasteado, em formato de ereção.

Aviso final ao eleitor: O lacre da Urna Eleitoral é uma cartela de ficha limpa entre o cabaço e o comedor. Votou sujou.

30 setembro 2010

O candidato - Jessier Quirino

O Candidato
(Jessier Quirino)

06 maio 2010

Jessier Quirino - Problema Cardíuco

Uma coisa que não existe no sertão é o tal do stress. O sertão é mais tranquilo que Nossa Senhora rezando, balançando os pés numa nuvem. É isso que o poeta Jessier Quirino retrata neste conto:

28 abril 2010

A Balinheira - Álvaro Diniz Filho

 


A Balinheira
Álvaro Diniz Filho


ATIRADEIRA – Forquilha de madeira ou metal, munida de elástico com que se atiram pequenas pedras [Sin. (em vários pontos do Brasil): baladeira, baleeira, beca, bodoque, badoque ou badogue, estilingue, funda, peteca, seta setra.]

Engraçado, no pai-dos-burros tem todos esses nomes mas não tem o da minha infância: Balinheira, é ba-li-nhei-ra. Lá no “mei do mato” se vê moleque danado atrás de um gancho perfeito, bem feitinho, de madeira forte que não quebre, não rache e não empene e por isso é que tem que ser de Araçá ou Goiabeira; a liga é de câmara de ar de trator daquela quadradinha que só se acha nos melhores bancos do “mei” da feira de mangai do interior e quando você atira a pedra chega a tinir no chão. Já o couro de lançar a pedra pode ser tirado de qualquer sapato velho, desde que seja forte pra aguentar o repuxo. Outra coisa, se vai sair pra dentro do mato tem que levar pelo menos umas liguinhas para o conserto, se precisar.

Agora sim! O que se vê?

É pedra no cajú, no cajá, na manga espada, na casa de marimbondo cabôco que sai correndo atrás da gente; É pedra na lagartixa... só que antes de atirar, “por uma questão ecológica” você tem que perguntar a ela: “E aí dona lagartixa voce tá querendo briga?”. Se ela balançar a cabeça dizendo que sim você atira, se ela balançar a cabeça dizendo que não, você deixa a bichinha ir embora. É pedra na rolinha caldo-de-feijão que é uma beleza depois de depenada e frita, é pedra no beija-flor, êpa! Mas aí tem que levar uma faca pra correr pegar o bicho ainda vivo, tirar o coração ainda batendo e engolir dizendo: “Bicho ligeiro e miúdo com o teu coração comigo eu agora acerto em tudo!”

Daí você vai ficar com uma pontaria sem igual, porém, para tudo dar certinho, tem que treinar muito pois tem que matar o bichinho no vôo.

Se for entrar numa “guerra”, a bala não pode ser de pedra. Tem que ser de mamona ou carrapateira e também não pode acertar na cabeça do outro, se não, você é expulso da brincadeira.

Se for atirar na água da lagoa, açude ou rio você tem que usar “checho” (seixo) pois o bicho é bem lisinho e se atirar bem rente com a água, aí você vai ver a pedrinha repicar sei quantas vezes na flor dela.

No final do dia você volta pra casa morto de cansado e sua mãe vai dar graças a Deus que você tava brincando com balinheira e não com bola de pano na areia do rio.

Bola de pano? Que danado é isso?
Ah, essa é uma outra aventura.

22 janeiro 2010

Tem rapariga aí? - Texto de Ariano Suassuna

‘Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão.

Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas bandas do gênero).

As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam).

Biografia de Ariano Suassuna

Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade. Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas.

Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá:

Calcinha no chão (Caviar com Rapadura),
Zé Priquito (Duquinha),
Fiel à putaria (Felipão Forró Moral),
Chefe do puteiro (Aviões do forró),
Mulher roleira (Saia Rodada),
Mulher roleira a resposta (Forró Real),
Chico Rola (Bonde do Forró),
Banho de língua (Solteirões do Forró),
Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal),
Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada),
Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca),
Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró),
Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró).

Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas. Porém o culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo.

O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental.

As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde.

Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem.

Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é: ‘É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

Um texto de Ariano Suassuna
Caricatura: Baptistão

01 dezembro 2009

O Mar... O Mar... O Mar


As lembranças que tenho do mar são todas gratificantes. Vivendo em Capital litorânea, via as águas do mar por todo lado, com seus grandes lençóis de areia branca. Ele estava nas conversas, nos sonhos, no cotidiano durante o dia e na escuridão da noite, barulhando, a maré enchendo e secando, o mar com seus sargaços amargos, seus barcos ondulando, e sua grandiosidade que esmaga.

O mar... O mar... O mar - grandioso mar - das vilas dos pescadores, do peixe fresco exposto nas calçadas, dividia uma linha de horizonte que se estendia pra lá de toda e qualquer imaginação. Quando criança, a visão do mar dava-me a condição de impotência diante de Deus, sendo eu somente um grãozinho de areia perdido no universo. Mas, depois que cresci, passou a ter outra conotação. Ele era o ponto final das farras do nosso grupo de adolescentes e intelectuais que rodavam todos os bares da cidade, indo desaguar urinas, versos e orgasmos pelas madrugadas, na escuridão da Praia de Tambaú.

Quando não existiam ali hotéis e pousadas, Tambaú era uma praia selvagem onde conviviam, pacificamente, os pescadores com suas redes de pescar, seus barcos a vela precários, e uma elite privilegiada que vivia trancafiada nas mansões. Durante a noite, vinha a solidão. Nesse tempo, Tambaú não tinha turistas ou edifícios nas proximidades, e muito menos hotéis de cinco estrelas, e seu único restaurante conhecido era o Elite Bar. Durante o dia, as pessoas pobres se misturavam com as ricas, sem problemas, pisando o chão de terra batida ou nos banhos de mar. À noite, somente os pescadores, em sua labuta incansável, tomavam conta da areia, à beira-mar, contando estórias sem fim. Era com estes que a gente se misturava, ouvindo canções de marinheiros e dividindo garrafas de cachaça e litros de rum Montilla, misturados com Coca-Cola, que nos levavam à embriaguês e à suprema felicidade.

Nesse cenário luxuriante, sobravam poemas, músicas inesquecíveis em serenatas em homenagem ao nada, e muita trepidação dos atos sexuais proibidos, desafiando a moral, os bons costumes, e a perseguição oficial. Dormíamos na areia o sono dos humildes, sob a guarda discreta dos velhos pescadores, despertando pela manhã com o sol explodindo na cabeça, cansados e felizes, sem compromisso, e irremediavelmente apaixonados.

A embriaguês de nossa juventude invadia a cidade, e as sessões de luar na Praia de Tambaú repercutiam durante a semana toda, enquanto nossa turma se trancava em quartos pequenos e apertados para exercer a sublime vocação de poetas e donos do mundo. Resultavam disso gavetas e mais gavetas apinhadas de originais, as palavras cambaleando, ainda impuras e desorganizadas, e nenhuma obra publicada. Formávamos, assim, um pequeno batalhão de autores desconhecidos, todos inéditos, ingênuos sonhadores, querendo mudar o mundo sem saber como, famintos de amor, e incapazes de administrar o caos. Eu era a única representante feminina do grupo, musa inspiradora e símbolo sexual de todos aqueles rapazes. Feito a Maria Bonita do bando de Lampião.

Como coroação de nossa sede de viver, redigimos e assinamos o "Manifesto da Dissipação", elegendo Antonioni como o maior cineasta do mundo, por seu filme "A doce vida", e propondo a todos os que nos lessem e nos ouvissem a subversão da moral, uma vez que a subversão política estava banida do País por decretos governamentais.

Quando as noites de Tambaú eram apenas lembrança, e a solidão já pesava, depois que a vida nos separou, uns cassados, outros caçados e presos nos porões da Ditadura Militar, eu restei sozinha diante dos impasses. Não tinha mais noites enluaradas, serenatas, poemas na madrugada ou felicidade. Eu estava no centro da cidade, nauseada, me sentindo mal, e achei que ia morrer.

Não sei por que, ao invés de procurar ajuda médica imediata, tomei um ônibus na direção da Praia de Tambaú e lá sentei-me num banquinho rústico de frente para o mar, onde iniciei um longo e solene discurso de despedida. Era de novo criança, indefesa diante do inexorável. Rezei, naquele momento, uma oração inesquecível, lembrando minha trajetória até ali, cheia de percalços e sacrifícios, sonhos e frustrações, falando sobre a tragédia do mundo, que era também a minha, no meu desespero e na minha vida que perdera o sentido.

À medida que o discurso avançava em pensamento, de olhos fixos na imensidão do mar e na linha do horizonte, que ia ficando cada vez mais distante, mais me abatia o patético da minha condição. Encontrei ali algumas pessoas conhecidas, que falavam comigo e eu não podia entender o que diziam.

Que idioma usavam para se comunicar? Seria Grego? Inglês Arcaico? Ou Latim... Por que eram apenas duas horas da tarde e o mundo estava escurecendo, como se a noite chegasse?

Tanto já estava escurecendo que se apagou de vez e eu não vi mais nada. Quando me acordei, saindo do prolongado estado de coma, estava na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital, vítima da desidratação, da tristeza e da saudade... Por falar nisso, eu nunca mais vi o mar.

A última notícia que me chegou dele é que as águas poluídas da Praia de Tambaú estão impróprias para o banho, segundo boletim divulgado pela Sudema.


Maria José Limeira
(Do livro "Memórias", Volume I)

31 julho 2009

O Casamento do Curió

Auto nordestino sobre figuras pitorescas que permeiam o imaginário de cordelistas, repentistas e apaixonados por nossa cultura em geral. Vencedor do Itaú Cultural 2005-2006 categoria Textos Inéditos. Texto Cadu Pereira. Roteiro Alexandre Guimarães.

29 janeiro 2009

O último adeus ao trema


Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro. Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência.

Fomos argüídos a respeito? Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida. Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida?

Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.

Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade. E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.

Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento. O que vai acontecer com o grão de bico com gergelim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?

Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que "a última enxagüada é a que fica"! Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio. É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?

Haja ungüento para suportar tamanha dor!

O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança? Portanto, pela qüinquagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.

Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical. Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido. Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.


Veja aqui como fica nossa ortografia sem o falecido trema.

13 maio 2008

Conde Drácula

Olhou no espelho e não viu nada, apenas o sangue que escorria lentamente pelo vidro trincado. Seus dentes enormes doíam e sua boca salivava cada vez mais. Na espreita, uma sombra... Um reflexo sem nexo e sem alma de um ser vindo da escuridão.

Nem a nevoa da madrugada era capaz de camuflar o rastro de morte que pairava sobre os becos estreitos e assustadores daquele lugar. O constante desejo de beijar aquecia ainda mais seu ímpeto de matar. Uma alma estava condenada a escuridão da imortalidade.

Era meia-noite e a lua cheia surgia dentre nuvens turvas. No cume da torre mais alta, um voo rasante corta o silêncio da madrugada. É o senhor das trevas que baila no ar perseguindo a donzela de vestido vermelho. Os passos apressados da dama espalham folhas secas e a leve brisa, contorna seu corpo, conduzindo um forte aroma de vida e sangue fresco.

Enfim, o Conde está de volta. Insaciável, sedutor. A bela, de olhos brilhantes e arregalados, paralisa aterrorizada diante a morte. Apenas 2 passos separam o Conde Drácula daquele pescoço macio. O pavor da doce vítima impulsiona o desejo de beijar. Seu grito apavorado se cala quando os dentre cravam profundo na carne e o sangue que escorre, sentencia há vida eterna mais uma alma dentro de um corpo desfalecido.


Magia de Amor
Raul Seixas/P. Coelho

Me fascina tua morte mal morrida
E a tua luta pra ficar em tal estado
O teu beijo, tão fatal, nunca me assusta
Pois existe um fim pelo sangue derramado

Me fascinam teus olhos quando brilham
Pouco antes de escolher quem te seduz
E me fascinam os teus medos absurdos
A estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz

Me fascina a tua força, muito embora
Não consiga resistir à frágil aurora
E tua capa, de uma escuridão sem mácula

Me fascinam os teus dentes assustadores
E teus séculos de lendas e de horrores
E a nobreza do teu nome, Conde Drácula.

24 abril 2008

O conto da lua - 4

Nosso tempo acabou
Cap. 4 – As respostas

Um dia depois da ligação ele acordou mais cedo que normalmente. Como era uma sexta-feira, levantou de bom humor, assobiando, estralando os dedos e ritmando uma melodia bem característica de fim de semana. Fez a barba ainda assobiando, escolheu a roupa com mais cautela que o habitual, tomou um café da manhã bem reforçado e foi ao trabalho. No caminho só pensava como seria aquele encontro. Apesar do friozinho na barriga que não sentia deste os tempos de colégio, ele estava confiante. Não tinha nada a perder, só precisava olhar nos olhos dela e conversar como bons amigos. O difícil era manter as coisas fáceis assim após tantos anos. No fundo sabia que nada do que planejasse, sairia como tal. Era melhor não projetar nada e deixar acontecer.

E as horas teimavam em não passar. Ele olhava constantemente pro relógio que inclusive tinha sido um presente dela. Apesar de não usá-lo, fez questão de adicioná-lo ao visual. Essa atitude poderia render alguns pontos ao seu favor, como sabia também que poderia ser mal interpretado. Preferiu arriscar.

Chegando ao restaurante, uma hora antes do combinado, apreçou-se em pedir um vinho, precisava relaxar, estava muito tenso. Estralava os dedos o tempo todo, tinha que policiar-se com esses detalhes, afinal de contas seu nervosismo não poderia transparecer. Agora os minutos passavam rápido. Em sua mente, por mais que não quisesse, existia um breve roteiro de perguntas, de assuntos no qual abordaria. A falta do que dizer era o mais desesperador.

Ela chegou, finalmente. Mal poderia acreditar que era ela mesmo que está aqui. Aquele momento que ele tanto esperava tinha chegado. Não mudara muito, continuava praticamente do mesmo jeito. Puxou a cadeira pra que sentasse esboçando um ar de cavalheirismo que nunca teve. Admirada, agradeceu com um sorriso.

- Quanto tempo em! Menino, como você ta diferente, quase não te reconheci. Tudo bem?
- Tudo bem, já você não mudou muito. Continua praticamente a mesma. Foi difícil achar o restaurante?
- Não, não; a cidade ta bem diferente, mas ainda sei me virar. Muita coisa mudou por aqui né, mas apesar do tempo que estou fora, tem coisas que não saem de minha cabeça. Impossíveis de esquecer.

Aquilo soou como uma bomba em seus ouvidos. Teria sido uma indireta ou uma “diretona” bem no meio de sua cara? Ficou sem jeito e mudou rapidamente de assunto para que o rumo da conversa não atrapalhasse as coisas. Apesar de tudo, eram agora apenas bons amigos.

Conversaram sobre muitas coisas, menos sobre o assunto que desejavam. Ambos relutavam em não tocar no assunto. Por mais que resistisse, foi inevitável. A iniciativa partiu dela.

- Aquele lugar que íamos antigamente ainda existe?
- Qual? – Perguntou mesmo sabendo do que se tratava.
- Aquele que dava pra ver a lua bem de pertinho, a beira-mar.
- Ah sim, claro que existe, gostaria de ir lá?
- Sim, se você não si importar, adoraria.

Ao chegar ela ficou parada de pé contemplada com a beleza, olhando para aquele feixe de luz no mar causado pelo brilho da lua, respirando o ar puro com cheiro de maresia. A impressão que se tinha era de que se esticasse o braço, daria pra segurar a lua. Aquele lugar que um dia representou muita coisa, agora não passava de uma bela vista estrelada.

- Não podia ir embora sem voltar aqui, esse lugar é mágico – Disse ela de olhos fechados.
- E você pretende ficar na cidade até quando?
- Achei que você não fosse fazer essa pergunta. Bem, infelizmente meu último dia foi hoje.
- Como assim, você já vai embora?
- Sim, foram duas semanas maravilhosas.
- Então por que você só me ligou ontem de madrugada? Por que não ligou antes?
- Porque se ligasse antes, iria da tempo pra cometer novos erros.
- Você chama de erro o que aconteceu entre nós?
- Não, o que classifico como um erro é o que não aconteceu! Mas é melhor a gente esquecer esse assunto. Nosso tempo acabou.

Ela se aproximou dele, pôs as mãos em seu rosto e disse:

- Nosso tempo acabou, foi bom te rever, mas agora precisamos ir.
- Eu apenas precisava desse reencontro, precisava olhar em seus olhos dessa forma pra que todas as minhas dúvidas não ficassem sem respostas.

- Você já tem essas respostas?
- Acho que sim, já tenho todas. Agora posso dormir em paz.

Ele ficou imóvel e surpreso com o que tinha acabado de ouvir. Agora já tinha todas as respostas que precisava também...

... Será que o tempo acabou mesmo, pensou consigo. Acho que sim. Ele agradeceu por tudo, deu umas batidas na sola do sapato pra cair o excesso de areia e foi embora. Ainda pensou em ficar e dizer alguma coisa que a fizesse mudar de idéia, mas desistiu e foi. Nem olhou pra traz. Afinal de contas ele já não tinha nada mesmo para fazer ali, apenas o confortava aquele lugar. Sabia que nunca mais iria voltar ali, não daquele jeito...

Cap.1 - O outro lado da lua
Cap.2 - O perfume da noite
Cap.3 - O passado se fez presente

21 abril 2008

O conto da lua - 3

O passado se fez presente
Cap. 3 – A surpresa

Levantou e foi beber água, a sede era insuportável. Sua garganta ressecada já lhe causava súbitos pesadelos. Nem a sede nem os pesadelos, ele sabia que o real motivo daquela insônia era ela. Precisava encontrá-la de qualquer forma, nem que fosse pra proferir o som de seu silencio mórbido e olhar em seus olhos apenas. Aquilo o atormentava e não o deixava em paz. O que mais precisava naquele instante em que saciava a sede, era engolir seu orgulho e satisfazer seu desejo de revê-la, embora soubesse que seria a ultima vez.

Era um misto de curiosidade com vaidade. Quem sabe até saudade. Não conseguia mais definir tal angustia, será que ainda existia algum sentimento. Certamente sim, mas qual? Isso era o mais desafiador. Só uma coisa o faria libertar-se daquela aflição que o contagiava cada vez mais: encontrá-la. Tinha medo que nesse reencontro com seu passado nada mais sentisse, tão quanto e até maior, era o pavor da constatação que nada mudara. Que tudo aquilo que sentiu um dia voltasse à tona, quem sabe ainda mais forte. Talvez o mais coerente fosse nunca mais encontrá-la, manter aquela dúvida para todo o sempre e seguir sua nova vida. Mais de que adiantaria viver com aquela interrogação na cabeça, o melhor era acabar logo com tudo isso.

Muito tempo já se passara desde a última vez que a vira. Como ela estaria? Mais bonita? Madura? Mais feliz? Será que perdeu aquele jeitinho triste de olhar e falar? Por que depois de tantos anos ainda existiam aqueles anseios. Talvez por aquela história precisasse apenas de um fim digno pelo que representou na época.

Eram muitas dúvidas que pairavam em seu eu. A lua já tinha sumido da varanda, o dia raiava e ele precisava urgentemente dormir. Ao voltar para o quarto seu coração acelera do susto ao ser surpreendido com uma ligação. Contrariado e até um pouco ofegante, atende. Seu coração acelerado quase parou ao ouvir aquela voz, era ela. Aquele fantasma voltara justamente no momento de toda aquela reflexão, seria coincidência? Destino? Ele não acreditava muito nessas coisas. Apesar do tempo, nunca iria esquecer aquela voz. Nada mais pronunciou depois de dizer "alô". Ficou mudo, paralisado. Um filme passou em sua mente em apenas 2 segundos. Ela também o reconheceu apenas no "alô" e segura do que dizia, justificou aquela ligação. Pelo tom da voz e principalmente pela forma que falou, não restavam dúvidas. Tudo que ele ainda desejava saber foi esclarecido naquele instante.

Continua...
Cap.4 - Nosso tempo acabou
Cap.1 - O outro lado da lua
Cap.2 - O perfume da noite

16 abril 2008

O conto da lua - 2

O perfume da noite
Cap. 2 – A dúvida

Um dia antes da ligação ele estava voltando para casa e ao fazer a curva, teve aquela estranha sensação de tê-la visto. Aquele andar lhe era muito peculiar. Ainda olhou pelo retrovisor, mas como tava em certa velocidade não teve certeza. Os carros buzinando também impossibilitaram um possível retorno, além do mais era horário de pico e todos estavam com o estresse a flor da pele. Preferiu seguir em frente, mas aquela possibilidade deixou-o pensativo e o fez voltar alguns anos em sua mente. Ao chegar em casa a rotina doméstica pois uma virgula naquelas lembranças.

A lua estava linda e toda aquela nostalgia pedia uma dose de uísque. Colocou algumas musicas que há tempos não ouvia. Da varanda contemplava todo aquele cenário, nada como um momento assim depois de um dia estafante no trabalho. A sensação era que a lua o observava. Misteriosa como sempre e cúmplice de seus segredos mais íntimos, ela parecia ser sua única companhia naquela noite, mas não era, havia outra ali bem viva em seu imaginário: ela. Podia vê-la ao fechar os olhos e até sentir seu perfume novamente. Chegou a convidá-la para um drinque e sobe os efeitos da quarta dose, sorriu balançando a cabeça negativamente.

Teve vontade de ligar para alguns amigos em comum da época, amigos que não mantinha contato a certo tempo. Seria bom poder conversar um pouco, atualizar-se dos acontecimentos recentes e fortuitamente é claro, tentar descobrir se ela estava de volta. Pensou por alguns minutos pra quem ligar primeiro, até fez uns rabiscos do provável diálogo que teria que seguir como fazia na adolescência. Achou aquilo ridículo, mas ao mesmo tempo engraçado e emocionante. Sentia a adrenalina o contagiar. Primeiro justificaria sua ligação perguntando se possuía o telefone de outro amigo, isso seria uma boa desculpa, em seguida falaria de trabalho, futebol, mulheres e finalmente perguntaria pela velha guarda, a chance dela torna-se o assunto principal da conversa seria alta. Mas tudo teria que parecer casual.

E assim fez, ligou, conversou por vários minutos, mas não obteve nenhuma informação sobre ela. Nem se quer foi mencionada na conversa. Sua estratégia falhou. Não conseguiu conter a frustração, embora não demonstrasse nada. De certa forma ficou feliz em ter conversado, é sempre bom manter o contato com os velhos amigos. Até marcaram de sair no fim de semana.

Estava na hora de dormir. O dia seguinte seria decisivo, aquela reunião era de extrema importância. Entretanto, preferia não pensar em trabalho e foi dormir com uma dúvida: será que era ela?

Continua...
Cap.3 - O passado se fez presente
Cap.4 - Nosso tempo acabou
Cap.1 - O outro lado da lua

14 abril 2008

O X da equação

Ele, um número completamente irracional. Ela, uma aritméticazinha linda, ímpar, perfeita. Conheceram-se aleatoriamente numa amostragem simples. Sem perder tempo, ele fez logo uma análise de seus componentes principais e entrou em alfa. Se achando o próprio modelo autoprogressivo e esboçando aquele nível de confiança, pensou: só existem duas hipóteses: ou nula, ou alternativa. Ele estava correto em suas análises, pois, ela correspondeu na mesma freqüência esperada.

Agora são dois algarismos de uma mesma inequação. Uma interseção, às vezes comutativa, às vezes associativa, dentro de um teorema em que a razão não tem lógica e que essa lógica perde completamente a razão.

São as quatro operações, dependendo da ordem dos fatores, ele a acrescenta ou ela o multiplica. Dividem os produtos sem subtrair o resto. Assim vão seguindo paralelamente buscando um resultado simétrico para essa atração cardinal.

Ela é seu par ordenado, sua coordenada nesse sistema tão complexo. Apesar do gabarito dele, ela sempre acerta todas as respostas. É a prova por absurdo que nessa análise de sobrevivência, ela é o X que torna toda sua equação exata.

12 abril 2008

O conto da lua

O outro lado da lua
Cap. 1 - O encontro

Ela aproximou-se dele, pôs as mãos em seu rosto e disse:

- Nosso tempo acabou, foi bom te rever, mas agora precisamos ir.

Será que o tempo acabou mesmo, pensou consigo. Acho que sim. Ele agradeceu por tudo, deu umas batidas na sola do sapato pra cair o excesso de areia e foi embora. Ainda pensou em ficar e dizer alguma coisa que a fizesse mudar de idéia, mas desistiu e foi. Nem olhou pra traz. Afinal de contas, já não tinha nada mesmo para fazer ali, apenas confortava-o aquele lugar. Sabia que nunca mais iria voltar ali, não daquele jeito.

No caminho de volta viu que a lua estava olhando-o, não parava de lhe observar. Quando ele a olhava, logo disfarçava. Acho que ela não queria que ele percebesse. Ela parecia que estava dentro d água, como se tivesse boiando num rio transparente. Tentou enganá-la e dar um flagra, de nada adiantava, estava mesmo disposta a persegui-lo naquela noite, só espiando-o. Ninguém consegue enganar a lua, por mais que tente.

Não sabia o que era pior: ir embora sabendo que o tempo já tinha acabado ou pelo simples fato de achar isso. E ainda tinha a lua que não tirava os olhos dele. Foi quando resolveu parar. Tava frio, mas parou e olhou pra ela. Imediatamente ela parou também. Para sua grande surpresa, não disfarçou mais seu olhar, encarou-o e até sorriu. Acho que também precisava de alguém para conversar.

- Porque você está me olhando e me seguindo desde que sai de lá em dona lua? Eu fiz algo de errado?

Ela apenas brilhou em minha direção.

- Isso é um sim ou um não?

Outro brilho ainda mais forte.

- Dona lua, se esse brilho for um sim, então me mostre o que seria um não.

Daí ela apagou. Tudo ficou escuro. Só as estrelas agora lhe serviam de guia. Pelo menos já sabia o que era um sim e um não.

- Lua, prefiro você dizendo sim. Apareça!

Nada. Só a escuridão.

- Aparece, por favor, não quero ficar aqui sozinho!
- Eu deveria ter saído mesmo quando ela disse que o tempo acabou?

Perguntei já sem esperança nenhuma de alguma resposta. Imediatamente a lua apareceu. Ainda mais bela. Que alívio, não agüentava mais ficar ali naquela escuridão. Por outro lado, surpreso com sua afirmação. A lua nunca erra mesmo, muito sábia. Conformei-me.

- Porque você só mostra um lado? Gostaria de saber como seria seu outro lado. É tão belo quando esse?

Nada aconteceu, nem brilhou, nem apagou. Imaginou que ela própria não soubesse. Percebeu até que o brilho ofuscou. Será que ela não gostou da pergunta? Estaria a lua triste por não ter uma resposta ou será que se irritou com a indiscrição de uma pergunta tão íntima?

Eram agora dois seres ali sem luz, seu olhar continuava sem brilho, a lua não brilhava mais. Ela talvez por não conhecer seu outro lado, ele certamente por conhecer o seu demais. Nada perguntou. Preferiu ficar na dúvida se ela não soubesse, não gostasse ou se preferisse não falar de sua outra face. Aquela que ninguém nunca tinha visto, aquela que ninguém conhecia.

Continua...
Cap.2 - O perfume da noite
Cap.3 - O passado se fez presente
Cap.4 - Nosso tempo acabou

30 março 2008

Comadre Florzinha, o romance da Serra das Flechas

Um homem da cidade perambulando na mata é sempre suspeito, principalmente se não levar uma espingarda ou qualquer outro aparato da prática extrativista. Este homem é um jovem advogado, recém formado, que sai de João Pessoa nos idos dos anos 50 para se embrenhar no interior da Paraíba em busca de pesquisar arqueologia e seu destino o leva a selvagem serra das Flechas, no interior do município de Pedra Lavrada.

Enquanto o pesquisador dorme calmamente em sua rede de campana, uma filha da mata, de olhos luzentes, crescidos de assombro e fiel a todos seus instintos, fita curiosa o misterioso homem, se saber determinar-lhe os objetivos. Para a bela e lendária Comadre Florzinha, se trata de uma imagem nova na noite selvagem, inédita em suas reminiscências mentais, que se apresenta como sedução irresistível para um processo dedutivo de assimilação.

A duende, ao vê-lo acordar, questiona intrigada sobre suas intenções em sua floresta. E assim, se desenrola um instigante romance entre estas criaturas, tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas, nas brenhas da caatinga paraibana.

Este é o enredo do cordel "Coamadre Florzinha, o romance da Serra das Flechas", folheto de 133 setilhas poéticas em rimas toantes alternadas de autoria do historiador-poeta Vanderley de Brito, de Campina Grande-PB e é uma adaptação romântica para decantar este mito sertanejo do interior paraibano. Um cordel que, além de divertir, educar e resgatar uma tradição, como é característico de gênero literário, também provoca emoções e desperta desejos.

Numa mistura de ficção e realidade, o autor leva seu personagem a passear pela geografia paraibana e utiliza fatos históricos para que seu romance se enquadre num contexto temporal e físico da História e, com uma habilidade incrível, cria cenários pitorescos envolvendo fauna e flora do semi-árido seridoense.

Na visão deste historiador, a Comadre Florzinha, além de ser uma defensora ferrenha do ecossistema, é também uma fêmea, e como tal, sujeita a um amor fulminante e aos desejos e palpitações que o sexo desperta. Acostumada a surrar cães e seres humanos brutos e transgressores das leis da mata, ela encontra no pesquisador um homem compreensivo e cúmplice no desejo de manter a integridade dos animais e da flora silvestre.

Daí, enquanto o estudioso se mantém em sua catalogação científica, eles se encontram diariamente, nas noites frias da caatinga, para demoradas conversas sobre o meio-ambiente, suas belezas, mistérios e, principalmente, sobre a forma que o processo contínuo e avassalador de degradação ambiental está em processo. Esta afinidade ideológica acaba por se desfechar numa paixão proibida entre a entidade mística e o homem da ciência.

O texto poético vai se tornando mais saboroso quando se iniciam os preâmbulos da conquista, aperitivos de uma necessidade de excitação á junção conubial que é, imagino, inevitável entre este casal nos esmos da mata odorífica do sertão.

O cordel faz parte da série arqueológica, idealizada pelo autor, e é a quarta publicação do gênero da Sociedade Paraibana de Arqueologia. Já está disponível nas bancas de revenda e vem sendo muito elogiado pela crítica literária, até aqueles mais ortodoxos estão aplaudindo as inovações que Vanderley vem trazendo à literatura de cordel.

O trabalho, apesar de lidar com tema sertanejo e, às vezes, trazer a linguagem coloquial do meio rural, é deliciosamente erudito. Citando autores clássicos como Camões, Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, Clotilde Tavares e Câmara Cascudo, numa poesia métrica rebuscada, que é uma de suas marcas registradas de Vanderley de Brito. Este poeta-historiador, desde seu primeiro trabalho pretende restaurar a evidência do gênero trazendo-o para o academicismo, pois, segundo afirma:

“O cordel perdeu sua característica de jornal do sertão, pois o matuto não mais lê cordel, agora ele vê televisão. Quem lê é o erudito e, por isso, é necessário que o cordel se adapte às exigências de quem aprecia a boa literatura”.


O autor também afirma que não está descaracterizando a Caipora, pois, segundo suas perspectivas, a Comadre Florzinha só é vista como uma assombração zombeteira e cruel pelos homens rurais, pois são estes os principais interessados em subtrair da floresta a lenha e a caça e, naturalmente, estes são também os que sofrem os rigores da ira da duende. “Se olharmos por outro prisma, a Comadre Florzinha é uma defensora das matas, uma ecologista ativa. Portanto, uma entidade do bem”.

Autor: Vanderley de Brito

10 dezembro 2007

O encontro do Substantivo com o Artigo Feminino

Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE Universidade Federal de Pernambuco - (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Autora desconhecida.