O Jumento Santo (PARTE 1)
O Jumento Santo (PARTE 2)
![]() |
| Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio fotográfico pernambucano. A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50. |
![]() |
| Benjamim ao lado do Rei e Rainha do Cangaço |

‘Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão.

Olhou no espelho e não viu nada, apenas o sangue que escorria lentamente pelo vidro trincado. Seus dentes enormes doíam e sua boca salivava cada vez mais. Na espreita, uma sombra... Um reflexo sem nexo e sem alma de um ser vindo da escuridão.
Nosso tempo acabouUm dia depois da ligação ele acordou mais cedo que normalmente. Como era uma sexta-feira, levantou de bom humor, assobiando, estralando os dedos e ritmando uma melodia bem característica de fim de semana. Fez a barba ainda assobiando, escolheu a roupa com mais cautela que o habitual, tomou um café da manhã bem reforçado e foi ao trabalho. No caminho só pensava como seria aquele encontro. Apesar do friozinho na barriga que não sentia deste os tempos de colégio, ele estava confiante. Não tinha nada a perder, só precisava olhar nos olhos dela e conversar como bons amigos. O difícil era manter as coisas fáceis assim após tantos anos. No fundo sabia que nada do que planejasse, sairia como tal. Era melhor não projetar nada e deixar acontecer.
E as horas teimavam em não passar. Ele olhava constantemente pro relógio que inclusive tinha sido um presente dela. Apesar de não usá-lo, fez questão de adicioná-lo ao visual. Essa atitude poderia render alguns pontos ao seu favor, como sabia também que poderia ser mal interpretado. Preferiu arriscar.
Chegando ao restaurante, uma hora antes do combinado, apreçou-se em pedir um vinho, precisava relaxar, estava muito tenso. Estralava os dedos o tempo todo, tinha que policiar-se com esses detalhes, afinal de contas seu nervosismo não poderia transparecer. Agora os minutos passavam rápido. Em sua mente, por mais que não quisesse, existia um breve roteiro de perguntas, de assuntos no qual abordaria. A falta do que dizer era o mais desesperador.
Ela chegou, finalmente. Mal poderia acreditar que era ela mesmo que está aqui. Aquele momento que ele tanto esperava tinha chegado. Não mudara muito, continuava praticamente do mesmo jeito. Puxou a cadeira pra que sentasse esboçando um ar de cavalheirismo que nunca teve. Admirada, agradeceu com um sorriso.
- Quanto tempo em! Menino, como você ta diferente, quase não te reconheci. Tudo bem?
- Tudo bem, já você não mudou muito. Continua praticamente a mesma. Foi difícil achar o restaurante?
- Não, não; a cidade ta bem diferente, mas ainda sei me virar. Muita coisa mudou por aqui né, mas apesar do tempo que estou fora, tem coisas que não saem de minha cabeça. Impossíveis de esquecer.
Aquilo soou como uma bomba em seus ouvidos. Teria sido uma indireta ou uma “diretona” bem no meio de sua cara? Ficou sem jeito e mudou rapidamente de assunto para que o rumo da conversa não atrapalhasse as coisas. Apesar de tudo, eram agora apenas bons amigos.
Conversaram sobre muitas coisas, menos sobre o assunto que desejavam. Ambos relutavam em não tocar no assunto. Por mais que resistisse, foi inevitável. A iniciativa partiu dela.
- Aquele lugar que íamos antigamente ainda existe?
- Qual? – Perguntou mesmo sabendo do que se tratava.
- Aquele que dava pra ver a lua bem de pertinho, a beira-mar.
- Ah sim, claro que existe, gostaria de ir lá?
- Sim, se você não si importar, adoraria.
Ao chegar ela ficou parada de pé contemplada com a beleza, olhando para aquele feixe de luz no mar causado pelo brilho da lua, respirando o ar puro com cheiro de maresia. A impressão que se tinha era de que se esticasse o braço, daria pra segurar a lua. Aquele lugar que um dia representou muita coisa, agora não passava de uma bela vista estrelada.
- Não podia ir embora sem voltar aqui, esse lugar é mágico – Disse ela de olhos fechados.
- E você pretende ficar na cidade até quando?
- Achei que você não fosse fazer essa pergunta. Bem, infelizmente meu último dia foi hoje.
- Como assim, você já vai embora?
- Sim, foram duas semanas maravilhosas.
- Então por que você só me ligou ontem de madrugada? Por que não ligou antes?
- Porque se ligasse antes, iria da tempo pra cometer novos erros.
- Você chama de erro o que aconteceu entre nós?
- Não, o que classifico como um erro é o que não aconteceu! Mas é melhor a gente esquecer esse assunto. Nosso tempo acabou.
Ela se aproximou dele, pôs as mãos em seu rosto e disse:
- Nosso tempo acabou, foi bom te rever, mas agora precisamos ir.
- Eu apenas precisava desse reencontro, precisava olhar em seus olhos dessa forma pra que todas as minhas dúvidas não ficassem sem respostas.
- Você já tem essas respostas?
- Acho que sim, já tenho todas. Agora posso dormir em paz.
Ele ficou imóvel e surpreso com o que tinha acabado de ouvir. Agora já tinha todas as respostas que precisava também...
... Será que o tempo acabou mesmo, pensou consigo. Acho que sim. Ele agradeceu por tudo, deu umas batidas na sola do sapato pra cair o excesso de areia e foi embora. Ainda pensou em ficar e dizer alguma coisa que a fizesse mudar de idéia, mas desistiu e foi. Nem olhou pra traz. Afinal de contas ele já não tinha nada mesmo para fazer ali, apenas o confortava aquele lugar. Sabia que nunca mais iria voltar ali, não daquele jeito...
Cap.1 - O outro lado da lua
Cap.2 - O perfume da noite
Cap.3 - O passado se fez presente
O passado se fez presente
O perfume da noite
Ele, um número completamente irracional. Ela, uma aritméticazinha linda, ímpar, perfeita. Conheceram-se aleatoriamente numa amostragem simples. Sem perder tempo, ele fez logo uma análise de seus componentes principais e entrou em alfa. Se achando o próprio modelo autoprogressivo e esboçando aquele nível de confiança, pensou: só existem duas hipóteses: ou nula, ou alternativa. Ele estava correto em suas análises, pois, ela correspondeu na mesma freqüência esperada.
O outro lado da luaEla aproximou-se dele, pôs as mãos em seu rosto e disse:
- Nosso tempo acabou, foi bom te rever, mas agora precisamos ir.
Será que o tempo acabou mesmo, pensou consigo. Acho que sim. Ele agradeceu por tudo, deu umas batidas na sola do sapato pra cair o excesso de areia e foi embora. Ainda pensou em ficar e dizer alguma coisa que a fizesse mudar de idéia, mas desistiu e foi. Nem olhou pra traz. Afinal de contas, já não tinha nada mesmo para fazer ali, apenas confortava-o aquele lugar. Sabia que nunca mais iria voltar ali, não daquele jeito.
No caminho de volta viu que a lua estava olhando-o, não parava de lhe observar. Quando ele a olhava, logo disfarçava. Acho que ela não queria que ele percebesse. Ela parecia que estava dentro d água, como se tivesse boiando num rio transparente. Tentou enganá-la e dar um flagra, de nada adiantava, estava mesmo disposta a persegui-lo naquela noite, só espiando-o. Ninguém consegue enganar a lua, por mais que tente.
Não sabia o que era pior: ir embora sabendo que o tempo já tinha acabado ou pelo simples fato de achar isso. E ainda tinha a lua que não tirava os olhos dele. Foi quando resolveu parar. Tava frio, mas parou e olhou pra ela. Imediatamente ela parou também. Para sua grande surpresa, não disfarçou mais seu olhar, encarou-o e até sorriu. Acho que também precisava de alguém para conversar.
- Porque você está me olhando e me seguindo desde que sai de lá em dona lua? Eu fiz algo de errado?
Ela apenas brilhou em minha direção.
- Isso é um sim ou um não?
Outro brilho ainda mais forte.
- Dona lua, se esse brilho for um sim, então me mostre o que seria um não.
Daí ela apagou. Tudo ficou escuro. Só as estrelas agora lhe serviam de guia. Pelo menos já sabia o que era um sim e um não.
- Lua, prefiro você dizendo sim. Apareça!
Nada. Só a escuridão.
- Aparece, por favor, não quero ficar aqui sozinho!
- Eu deveria ter saído mesmo quando ela disse que o tempo acabou?
Perguntei já sem esperança nenhuma de alguma resposta. Imediatamente a lua apareceu. Ainda mais bela. Que alívio, não agüentava mais ficar ali naquela escuridão. Por outro lado, surpreso com sua afirmação. A lua nunca erra mesmo, muito sábia. Conformei-me.
- Porque você só mostra um lado? Gostaria de saber como seria seu outro lado. É tão belo quando esse?
Nada aconteceu, nem brilhou, nem apagou. Imaginou que ela própria não soubesse. Percebeu até que o brilho ofuscou. Será que ela não gostou da pergunta? Estaria a lua triste por não ter uma resposta ou será que se irritou com a indiscrição de uma pergunta tão íntima?
Um homem da cidade perambulando na mata é sempre suspeito, principalmente se não levar uma espingarda ou qualquer outro aparato da prática extrativista. Este homem é um jovem advogado, recém formado, que sai de João Pessoa nos idos dos anos 50 para se embrenhar no interior da Paraíba em busca de pesquisar arqueologia e seu destino o leva a selvagem serra das Flechas, no interior do município de Pedra Lavrada.
Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE Universidade Federal de Pernambuco - (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.
Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.
O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.
Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.
É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.
Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.
Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
Autora desconhecida.