22 janeiro 2010

Tem rapariga aí? - Texto de Ariano Suassuna

‘Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão.

Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas bandas do gênero).

As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam).

Biografia de Ariano Suassuna

Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade. Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas.

Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá:

Calcinha no chão (Caviar com Rapadura),
Zé Priquito (Duquinha),
Fiel à putaria (Felipão Forró Moral),
Chefe do puteiro (Aviões do forró),
Mulher roleira (Saia Rodada),
Mulher roleira a resposta (Forró Real),
Chico Rola (Bonde do Forró),
Banho de língua (Solteirões do Forró),
Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal),
Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada),
Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca),
Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró),
Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró).

Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas. Porém o culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo.

O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental.

As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde.

Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem.

Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é: ‘É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

Um texto de Ariano Suassuna
Caricatura: Baptistão


7 comentários:

  1. Silvia Dutra/ Sinhá Clementina23 janeiro, 2010

    Muito triste mesmo essa falta de respeito geral que se vê em vários gêneros musicais ( não só o forró) e outras manifestações artísticas. Sintoma grave de algo mais perigoso do que somente mau gosto e deselegância, esse palavreado chulo, a escolha de temas desse tipo demonstram um esgarçamento moral de todo o tecido de uma sociedade. E o fenômeno é mundial, não restrito somente ao Brasil ou países pobres, destruídos por guerras. Aqui nos EUA existem letras de Rap que são impublicáveis, e com assustadora frequência as mulheres nesse tipo de música (?) são tratadas como objeto a ser estuprado, usado e descartado. E o sexo como algo sujo, vil, violento, degradante, e amor apenas uma palavra sem sentido.E os "artistas" que criam esses horrores ficam milionários da noite pro dia, quanto mais sujo for o que eles criaram mais fama e dinheiro eles ganham em troca, o que incentiva outros a tentar abaixar ainda mais o nível. Cole Porter e outros músicos mestres da sutileza, do erotismo elegante, devem se revirar no túmulo. Parabéns, belo post.

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  2. Por Airton Soares

    Em favor do cabimento....

    Com certeza você já prestou a atenção no sorriso `ingênuo´ das dançarinas, dessas Bandas de Forró, quando `elogiadas´, na TV, pelo apresentador do programa.

    Mal sabem - ou dissimulam - que esse `elogio´- Ô mercadoria- , sob o ponto de vista da sociolingüística, não passa de mais uma execrável agressão contra elas: a de serem, eufemisticamente, qualificadas (comparadas! ) de putas... meretrizes. *


    Exceções existem, lógico! Dos dois lados.

    -------------------------

    * Meretriz vem do Latim meretrix, cis e significa mercadoria, ou mercês, ou seja, mulher que trafica suas carnes por dinheiro.

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  3. SOBREO POST TEM RAPARIGA AI?

    Por Airton Soares



    Com certeza você já prestou a atenção no sorriso `ingênuo´ das dançarinas, dessas Bandas de Forró, quando `elogiadas´, na TV, pelo apresentador do programa.



    Mal sabem - ou dissimulam - que esse `elogio´- Ô mercadoria- , sob o ponto de vista da sociolingüística, não passa de mais uma execrável agressão contra elas: a de serem, eufemisticamente, qualificadas (comparadas! ) de putas... meretrizes. *



    Exceções existem, lógico! Dos dois lados.



    -------------------------

    * Meretriz vem do Latim meretrix, cis e significa mercadoria, ou mercês, ou seja, mulher que trafica suas carnes por dinheiro.

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  4. Pior que isto está sendo visto como "cultura". Este tipo de baixaria deveria receber o nome de outro gênero musical, para não contaminar o forró autêntico cada vez mais relegado, ante o apelo visual e sexual destas bandas.

    O forró tem todo direito de ser ousado, mas apenas quando quer ser jocoso, o duplo sentido faz parte do forró visando o humor. Agora não há mais duplo sentido o sentido é claro e pra todo mundo ver e ouvir.

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  5. eh triste ver isso acontecendo,
    muita gente acha que pela minha idade eu gostei dessa pouca vergonha, mas a verdade eh que eu realmente tenho vergonha de dizer que esse tipo de barbaridade eh do mesmo lugar que eu.
    mais incrivel ainda [para pessoas que gostam desse tipo de coisa] eh saber que meu irmao mais novo ODEIA essas coisas chamadas "musica".
    espero que os jovens tenham mente aberta para ver que esta totalmente errado escutar uma lavagem cerebral dessas. acredito que esse tipo de coisa contribua com tanto erro na sociedade atual.... eh lamentavel!

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  6. Qual a fonte original desse texto? Gostaria que me mandassem: tales-alexandre@hotmail.com

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  7. Esse texto não é de Ariano Suassuna!
    O autor é José Telles. O título original é "A música dos valores perdidos".
    Qualquer pessoa que tenha tido o mínimo contato com a literatura de Suassuna --- contato além de ver alguma encenação adaptada na TV --- saberia que esse não é o estilo dele.
    Eis o artigo original: http://www.forroemvinil.com/a-musica-dos-valores-perdidos/

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