08 setembro 2008

O Plantador de Milho

O Plantador de Milho

Sou eu caboclo da roça
Criado dentro da mata
Nunca calcei um sapato
Nunca usei uma gravata
Moro perto da cidade
Mas pra falar a verdade
Só vou lá de feira em feira
Ou quando há precisão
De batizar um pagão
Ou buscar uma parteira

No dia que registrei
O meu filhinho mais novo
O juiz estava nervoso
Brigando no meio do povo
Me chamou de maltrapilho
Sujo, plantador de milho
E disse mais uma piada
Dessas que a boca não cabe:
Matuto pobre só sabe
Fazer menino e mais nada.

O juiz não tinha filhos
Que enfeitassem sua vida
Eu conhecia a história
E fui direto na "ferida":
O senhor está zangado,
Tem dez anos de casado
E a mulher não tem um filho;
A sua comida fina
Não contém a vitamina
Que há na massa do milho.

A minha família é grande
Dez filhos e a mulher.
Sua família é pequena
Mas é porque você quer.
A sua mulher lhe embroma
Quase todo dia toma
Anticoncepcional
Lhe vicia em novela
Dorme tarde e faz tabela
E esquece do "principal".

Ouvi o senhor dizer
Que está gastando por mês
Mas de dez salários mínimos
Só com perfume francês
Diz que a vida é uma bomba
Que foi não foi leva tromba
Com mercadoria falsa
Comprar perfume estrangeiro
É pra quem possui dinheiro
Nos quatro bolsos da calça

Caro doutor, lá em casa
Ninguém nem conversa em luxo
A fora uma simples roupa,
O resto é encher o bucho
Não acostumei meu povo
Exigir sapato novo
Para as festas de São João
Ao invés de um colar de ouro
Compro a rabada de um touro
Pra se comer um pirão.

Lá ninguém fala em perfume,
O que há na minha casa
É cheiro de carne assada
Pingando em cima da brasa
Minha cabocla Maria,
Gorda, disposta e sadia,
Pra toda vez que eu quiser
Botar fogo na geléia
Para isso a minha "véia"
É mulher, sendo mulher.

Como, é galinha caipira
E não galeto de granja
Ao invés de coca-cola
Tomo suco de laranja
Com rapadura de mel.
E escute aqui, bacharel,
Conversa longa me atrasa.
Quer ver a mulher Ter filho?
Bote um plantador de milho
Pra dormir na sua casa.

Autor: Daudeth Bandeira


10 comentários:

  1. Fabulosos estes versos. A linguagem de caboclo e a sua maneira de ver a vida está muito bem retratada.
    Além disso, encerra uma verdade cientificamente comprovada.
    Parabéns pela escolha.
    Norton

    ResponderExcluir
  2. Daudeth Bandeira é um artista muito conhecido aqui na terrinha, já estou preparando um bom material sobre ele para divulgar aqui, vale a pena por que o cabra é bom demais!

    ResponderExcluir
  3. Daudeth Bandeira eh um poeta completo,suas canções perfeitas,um repente de melhor qualidade,eh com muito orgulho q o admiro e com certeza sou sua fã,parabéns poeta vc eh completo. :raphaela taynã

    ResponderExcluir
  4. eu gostei muito de poema e sempro eu leio eu recomendo pra meus amigos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. SO FALA EM IMORALIDADE NAO GOSTEI

      Excluir
  5. que legal eu vou pegar esse para fazer meu trabalho de portugues sobre cordeis

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. eu tambem sou do colegio tobias de aguiar

      Excluir
  6. Meu nordeste é tão rico
    Nem precisa de dinheiro
    Aqui a gente faz verso
    De janeiro a Janeiro
    Escrevendo em cordel
    Herança de um menestrel
    Deste solo verdadeiro

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. adorei seu cordel..Parabéns..

      Excluir
    2. esse cordel é legal...parabéns...

      Excluir

Regras:
- O comentário precisa ter relação com o assunto;
- Para propostas de parcerias ou respostas sobre esse assunto, favor usar o Formulário de Contato.