05 maio 2009

Cicinho Gomes: o poeta do silêncio


Gostaria primeiramente de agradecer o poeta Ismael Gaião, que me enviou em primeira mão esse presente. Um cordel sobre Cicinho Gomes: o poeta do silêncio. Durante a semana, irei publicar trechos desse excelente trabalho.

Cordel coletivo com a organização dos poetas:
Ismael Gaião e Dedé Monteiro

O poeta Cicinho Gomes
Cícero Gomes Filho é filho de Cícero Gomes da Cruz e Maria Tereza das Dores. Egipciense do Sítio Caldeirão do Boi, mas tabirense por opção e de coração, desde o final da década de 40. Aqui casou com Ridailda Mascena Gomes, com quem teve quatro filhos: Mozart, Sandro, Sérgio e Gustavo. Fanático por poesia e poeta desde sempre, tanto escrevia bem como improvisava. Muito introvertido e arredio, falava pouco, pensava muito e, nos últimos anos de vida, teve na solidão a sua companheira predileta e inseparável. Faleceu em Tabira, na tarde do dia 11/03/2009.

Alguns dos seus Improvisos

Deixa de Sebastião da Silva:
Eu já vi milionário
Cair, por fim, na pobreza.

Cicinho:
Pode o homem ter riqueza
E cair por consequência.
Depois de ficar sem nada
Precisa ter paciência
Pra que suas próprias mãos
Não tirem sua existência.

Sebastião da Silva:
Entre animais assaltantes
É muito esperta a raposa.

Cicinho:
Animal tem feito coisa
Que muitas vezes estranho:
Num barreiro de água suja
Uma porca toma banho
E ao se coçar na parede
Deixa a marca do tamanho.

Furiba:
Passei a ficar mais triste
Quando mamãe faleceu.

Cicinho:
Depois que mamãe morreu,
Aumentaram meus fracassos.
Se estou dormindo desperto
Parecendo ouvir os passos
Daquela que em muitas noites
Me deu por berço os dois braços.

Mote:
A lua vinha beijando
A linda barra do dia


Num recanto de quintal,

Num cocho de catingueira,

Vi uma vaca leiteira

Lambendo um resto de sal.

O úbere, um manancial

Que nas pernas não cabia.

E enquanto a mesma lambia

O seu bezerro apojando,

A lua vinha beijando

A linda barra do dia.


Mote:
O sofrimento é o dono
Do resto da minha vida


O meu sofrimento é tanto

Que às vezes eu me confundo.

Creio que ninguém no mundo

Dará consolo a meu pranto.

Se pouco almoço, mal janto,

Não há sabor na comida...

Já desgostei da dormida,

Me deito e não sinto sono.

O sofrimento é o dono

Do resto da minha vida


O silêncio de um poeta, fala por ele mesmo
Por Joselito Nunes

Já tinha visto Cicinho, em cantorias aqui pelo Recife, mas não tínhamos muita aproximação. Isso foi numa época em que, Manoel Filó, morava numa casa alpendrada ali no bairro do Hipódromo, que era na verdade uma grande embaixada sertaneja.

Foi quando Zé de Cazuza, criou coragem, pegou na viola e começou a cantar pro lado daqui. Tinha um negão, de Camaragibe, tinha Seu Nozinho do ferro velho, em Campo Grande e outros mais que agora não lembro, que eram grandes promotores de cantoria.

Nessa ocasião eu conheci Urbano Lima, com quem freqüentei todos esses lugares. Nessa época a cantoria era muito prestigiada por aqui. Pinto, Lourival e Xudu ainda eram vivos e foi não foi, estavam cantando no Recife.

Então eu via Cicinho, um sujeito calado magro e moreno com um cabelo preto e muito fino, andando na companhia do mestre Ivo Mascena. Mas eu por ser novato, não sabia do poeta que estava ali a nos observar a todos, como fazem sempre os que abraçam essa difícil e penosa arte, (todos os que são condenados a viverem e morrerem por ela).

Só muito tempo depois, é que me aproximei desse pequeno grande homem, inclusive através de uma glosa sua, que me foi passada por Antônio de Catarina, em cima do tema, "o que eu admiro":

“Eu admiro o cancão
Na cabeça de uma estaca:
Olha pra baixo e pra cima
Acuando a jararaca,
Como quem diz: "ah meu Deus,
Ah se seu tivesse uma faca!..."

Esses versos calaram em mim, não só pela perfeição de rima e métrica, mas pelo retrato em preto e branco, ali diante dos olhos.

Eu que nasci e vivi toda minha infância e adolescência na caatinga, assisti muitas vezes à perseguição tenaz, da cobra venenosa, pelo cancão, ela rastejando indiferente à sua ira e ele em cima de marmeleiros e caatingas brancas, procurando a todo custo e desarmado, defender os da sua espécie.

A serpente representava o inimigo que ele não podia matar, mas enquanto a sua voz saísse da garganta, ele resistia. Havia um ostensivo sentimento de indignação, na atitude do cancão, que pouco podia fazer além de, com o seu trinado insistente, procurar denunciar a presença de um inimigo perigoso.

Esses versos de Cicinho, indiquei para uma antologia organizada por João Veiga, Luiz Carlos Diniz e Evilácio Feitosa, que se chamou O QUE EU ADMIRO, uma das melhores publicações de 2008.

Tive vontade de procurar Cicinho depois, pra gente discutir esse tema, pois eu percebia claramente naqueles versos simplórios e profundos, um grito de indignação contra as injustiças sociais ainda tão contundentes na nossa nação nordestina, mesmo depois da virada do século.

Sempre o grande e poderoso sobre o pequeno e mais fraco. Mas não deu tempo, até por que a gente se acostumou a pensar que os poetas jamais vão nos deixar e vai deixando eles no lugar onde sempre estiveram, ou seja: ao largo da nossa lembrança.

Acho que com a morte do poeta, só quem vai ganhar nessa história é Deus. Porque Cicinho vai, com certeza, pro céu.


9 comentários:

  1. Olá Marcos,
    Muito bom o post sobre Cicinho.
    Quantos valores temos perdido por aí e até chegarem a mídia já se foram.
    Realmente é bem interessante a sextilha do cancan.
    Um abraço,
    Dalinha

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  2. Obrigado Dalinha por está sempre aqui nos prestigiando. Seu cordel sobre o cancão também é muito bom. Abraços

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  3. Salve! salve! a cultura revolucionária e nordestina. Eu também participo de um blog de poesia se interessar retribuir a visita o endereço é lenitivocultural.blogspot.com

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  4. Olá Marcos!

    Um texto muito bem escrito e gostei muito. Adorei conhecer Cicinho Gomes atraves da sua narrativa e este cordel. Meu marido nada entende de blogs e informatica em geral, mas nordestino e ferrenho defensor da sua cultura e valores é leitor assíduo deste blog. E me disse que entrou em contato com voce e adorou prosa!Está ansioso pelo livro rsrs . Obrigada!



    Uma ótima e proveitosa semana! Beijos

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  5. “Quando eu não bebia cana
    Até chuva me ofendia.
    Peguei beber por remédio,
    Foi tão grande a serventia
    Que até a dor da saudade
    Não dói mais como doía."

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  6. Ficou muito bom Giovane. Se tiver algum material que deseje divulgar aqui, basta me enviar.

    Abraços

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  7. Estou quase me entregando/
    Ainda não me entreguei/
    Quando será eu não sei/
    Mas eu vou perambulando/
    Caio mas vou levantando/
    Já vivo só sem guarida/
    Minha esperança é perdida/
    Vivendo num desengano/
    O sofrimento é o dono/
    Do resto da minha vida./

    ************************
    //Anizio, 15/05/2009

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  8. Assim faz a natureza/
    No cenário matinal/
    Palco nehum mostra igual/
    Numa brisa com pureza/
    Com requintes de beleza/
    Que a luz do sol alumia/
    Com seus raios de enérgia/
    E o sol vinha se amando/
    A lua vinha beijando/
    A linda barra do dia. /

    ************************
    //Anizio

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  9. DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA...



    "As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
    têm direito inalienável à Verdade, Memória,
    História e Justiça!" Otoniel Ajala Dourado



    No CEARÁ, para quem não sabe, houve também um crime idêntico ao do “Araguaia”, contudo em piores proporções, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará no ano de 1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato JOSÉ LOURENÇO, seguidor do padre Cícero Romão Batista.



    O CRIME DE LESA HUMANIDADE

    A ação criminosa deu-se inicialmente através de bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como se ao mesmo tempo, fossem juízes e algozes.



    A AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA PELA SOS DIREITOS HUMANOS

    Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará foi de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO / CRIME CONTRA A HUMANIDADE é considerado IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira bem como pelos Acordos e Convenções internacionais, e por isso a SOS - DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza - Ceará, ajuizou no ano de 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que: a) seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) sejam os restos mortais exumados e identificados através de DNA e enterrados com dignidade, c) os documentos do massacre sejam liberados para o público e o crime seja incluído nos livros de história, d) os descendentes das vítimas e sobreviventes sejam indenizados no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos



    A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO

    A Ação Civil Pública inicialmente foi distribuída para o MM. Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, redistribuída para a 16ª Vara Federal na cidade de Juazeiro do Norte/CE, e lá chegando, foi extinta sem julgamento do mérito em 16.09.2009.



    AS RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5

    A SOS DIREITOS HUMANOS inconformada com a decisão do magistrado da 16ª Vara de Juazeiro do Norte/CE, apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife, com os seguintes argumentos: a) não há prescrição porque o massacre do Sítio Caldeirão, é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos das vítimas do Sítio Caldeirão não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do Czar Romanov, que foi morta no ano de 1918 e encontrada nos anos de 1991 e 2007;



    A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA

    A SOS DIREITOS HUMANOS, a exemplo dos familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, por violação dos direitos humanos perpetrado contra a comunidade do Sítio Caldeirão.



    PROJETO CORRENTE DO BEM

    A SOS DIREITOS HUMANOS pede que todo aquele que se solidarizar com esta luta que repasse esta notícia para o próximo internauta bem como, para seu representante na Câmara municipal, Assembléia Legislativa, Câmara e Senado Federal, solicitando dos mesmos um pronunciamento exigindo ao Governo Federal que informe a localização da COVA COLETIVA das vítimas do Sítio Caldeirão.



    PAZ E SOLIDARIEDADE,



    Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
    OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197 – 8719.8794
    Presidente da SOS - DIREITOS HUMANOS
    www.sosdireitoshumanos.org.br
    sosdireitoshumanos@ig.com.br

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